Demián Calixto saía da delegacia, ainda se refazendo do choque propiciado pela truculência da polícia, quando percebeu a gigantesca presença ao seu lado. — Então, sr. Calixto, vai pra que lado? — perguntou Augustine. — Sinceramente, não faço a menor idéia — respondeu Demián. Isso era a mais pura verdade. Ele não fazia idéia sequer de onde estava. A cidade não era nada familiar, parecia pequena e obscura, suja e cheia de gente mal-encarada. Se tinha...
— Dá a carteira. Demián Calixto ficou surpreso com aquela voz, que veio do nada, ordenando que entregasse aquilo que carregava consigo. Num ato reflexo, virou-se para ver quem lhe falava. Deu de cara com um homem pequeno, moreno, barba cerrada e cabelos crespos ensebados. Usava uma camiseta com listras horizontais pretas e verdes, uma bermuda vermelha e estava descalço. Essa visão se deu por uma fração de segundo, antes de o homenzinho fechar a mão esquerda e desferir um soco de...
Agora Demián Calixto era menino e corria descalço por um pomar de laranjeiras. Apanhava frutas maduras pelo caminho, improvisava um cesto na camiseta surrada, as laranjas caíam; parava, juntava-as do chão. Tornava a correr em direção à velha casa. Ao se aproximar , percebeu o destino se desvelando ante seus olhos: o pai carregava duas malas e partia a passos largos, sem olhar para trás. Demián apressou a corrida, gritava, entre ofegos, pelo pai. O homem parou e esperou o abraço do...
Depois de morrer em Mendoza, Demián Calixto voltou a si enquanto entrava por uma porta, em um aposento pequeno, limpo e mal-iluminado por uma lâmpada incandescente muito amarelada. Vestia um terno cinza de aparência antiga, amarfanhada, e seus sapatos tinham sola de madeira, ressoando contra os tacos do assoalho. Seguiu em frente, como que por instinto, e observou o pequeno quarto onde havia entrado. Havia uma cama de solteiro e um criado-mudo com um gramofone. Só isso. A cama era de...
Eram duas da manhã e Demián Calixto ainda caminhava pelas ruas de Palermo, Sicília. Não entendia porque tinha pressa, só sabia que voltara a si quando já se locomovia nervosamente sobre a calçada. Passava por becos que não conhecia, mas instintivamente sabia por quais vielas devia entrar. Estava em mangas de camisa, o vento morno soprava desde o Mediterrâneo que ficava a poucas quadras dali. Aos poucos, sua respiração recobrava o ritmo normal, e instantes vagos se revelam em sua...
Eu acordei lentamente. Não foi um despertar daqueles de cinema, com direito ao Sol batendo no rosto e pássaros cantando. Eu simplesmente despertei, os olhos pesados e a boca seca, imerso na habitual penumbra que se espalha dentro dos aposentos de dormir. Olhei para o teto, procurando forças para me espreguiçar. Visualizei o forro branco, nele pendurado um lustre barato que cobria uma lâmpada embaçada, de igual ou menor valor. Me estiquei, percebendo então que eu estava sobre uma cama...
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