Demián Calixto saía da delegacia, ainda se refazendo do choque propiciado pela truculência da polícia, quando percebeu a gigantesca presença ao seu lado. — Então, sr. Calixto, vai pra que lado? — perguntou Augustine. — Sinceramente, não faço a menor idéia — respondeu Demián. Isso era a mais pura verdade. Ele não fazia idéia sequer de onde estava. A cidade não era nada familiar, parecia pequena e obscura, suja e cheia de gente mal-encarada. Se tinha...
— Dá a carteira. Demián Calixto ficou surpreso com aquela voz, que veio do nada, ordenando que entregasse aquilo que carregava consigo. Num ato reflexo, virou-se para ver quem lhe falava. Deu de cara com um homem pequeno, moreno, barba cerrada e cabelos crespos ensebados. Usava uma camiseta com listras horizontais pretas e verdes, uma bermuda vermelha e estava descalço. Essa visão se deu por uma fração de segundo, antes de o homenzinho fechar a mão esquerda e desferir um soco de...
Agora Demián Calixto era menino e corria descalço por um pomar de laranjeiras. Apanhava frutas maduras pelo caminho, improvisava um cesto na camiseta surrada, as laranjas caíam; parava, juntava-as do chão. Tornava a correr em direção à velha casa. Ao se aproximar , percebeu o destino se desvelando ante seus olhos: o pai carregava duas malas e partia a passos largos, sem olhar para trás. Demián apressou a corrida, gritava, entre ofegos, pelo pai. O homem parou e esperou o abraço do...
Depois de morrer em Mendoza, Demián Calixto voltou a si enquanto entrava por uma porta, em um aposento pequeno, limpo e mal-iluminado por uma lâmpada incandescente muito amarelada. Vestia um terno cinza de aparência antiga, amarfanhada, e seus sapatos tinham sola de madeira, ressoando contra os tacos do assoalho. Seguiu em frente, como que por instinto, e observou o pequeno quarto onde havia entrado. Havia uma cama de solteiro e um criado-mudo com um gramofone. Só isso. A cama era de...
… e então a casa foi tomada de um vento quente, e uns papéis que eu procurava há meses voaram amarelos e partiram feito besouros, pesados e errantes, batendo pelas paredes, espalhando frases soltas sobre as tábuas que rangiam sob meus pés, e meu passo trôpego era a dança e a música, composição instantânea sobre um tema assoviado pelo vento quente… … recolhi os cacos do espelho derrubado pela ventania, e sob um deles jazia um pedacinho de papel-manteiga, onde se...
O Velho Leon e Natália em Coyoacán (Vitor Ramil sobre poema de Paulo Leminski) desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia o céu vai estar limpo e o sol brilhando você dormindo e eu sonhando nem casacos nem cossacos como em petrogrado aquele dia apenas você nua e eu como nasci eu dormindo e você sonhando não vai mais ter multidões gritando como em petrogrado aquele dia silêncio nós dois murmúrios azuis eu e você dormindo e sonhando nunca mais vai ter um dia...
Cais (Milton Nascimento – Ronaldo Bastos) Para quem quer se soltar invento o cais Invento mais que a solidão me dá Invento lua nova a clarear Invento o amor e sei a dor de me lançar Eu queria ser feliz Invento o mar Invento em mim o sonhador Para quem quer me seguir eu quero mais Tenho o caminho do que sempre quis E um saveiro pronto pra partir Invento o cais E sei a vez de me lançar Eu me lanço aberto Feito a estrela Que outro dia eu inventei Em cinco pontas Apontando...
Nuvem Cigana (Lô Borges – Milton Nascimento) Se você quiser eu danço com você No pó da estrada Pó, poeira, ventania Se você soltar o pé na estrada Pó, poeira Eu danço com você o que você dançar Se você deixar o sol bater Nos seus cabelos verdes Sol, sereno, ouro e prata Sai e vem comigo Sol, semente, madrugada Eu vivo em qualquer parte de seu coração Se você deixar o coração bater sem medo … do som da música que nos guia, enquanto não há nada mais...
Vão surgindo tecidos grossos Ventos sólidos e vidros baços Esvaziam-se os parapeitos Pouco a pouco Folha a folha Dia a dia Letra a letra Vão se armando os guarda-chuvas As marquises e os abraços As calçadas e os meus passos Estes troncos em pedaços Esqueletos sobre a rua Pedra sobre pedra Tom sobre tom Pé ante pé Boca-a-boca A palavra nua Envolve estes espaços Tudo envolve em seus braços Aura densa e fria Metro a metro Um a um Pouco a pouco Folha a folha Caímos pela via Do...
O Outono é a estação do ano que sucede ao Verão e antecede o Inverno. É caracterizado por queda na temperatura , (exceto nas regiões próximas ao equador) e pelo amarelar das folhas das árvores, que indica a passagem de estações. O Outono do hemisfério norte é chamado de “Outono boreal”, e o do hemisfério sul é chamado de “Outono austral”. O “Outono boreal” tem início, no Hemisfério Norte, a 23 de Setembro e termina a 21 de Dezembro. O “Outono austral” tem...
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