… e então a casa foi tomada de um vento quente, e uns papéis que eu procurava há meses voaram amarelos e partiram feito besouros, pesados e errantes, batendo pelas paredes, espalhando frases soltas sobre as tábuas que rangiam sob meus pés, e meu passo trôpego era a dança e a música, composição instantânea sobre um tema assoviado pelo vento quente…
… recolhi os cacos do espelho derrubado pela ventania, e sob um deles jazia um pedacinho de papel-manteiga, onde se lia um pedacinho de poesia sépia, um naco de verso que se perdeu feito ilha desgarrada do íntimo de um vulcão; e as palavras romperam o limite duro da borda rasgada do papel, reverteram a secura da tinta em um sonho úmido e breve como aqueles sonhos que deixam aflorar marcas sobre a superfície da existência humana, marcas que emergem do mais profundo e orgânico desejo, desejo de marcar caminho pra voltar sistematicamente aos mesmos sonhos, caminho marcado com pedaços de papel-manteiga e frases avulsas…
… o vento continuava a entrar, implacável, pelas frestas da janela, a casa assoviava e rangia mais e mais, meu corpo era caixa de ressonância para os ecos daquela tempestade, eu ouvia trovoadas distantes feito notas de uma música que certa vez eu ouvi, mas que foi perdida pelo caminho; as palavras de papel-manteiga ainda deslizavam sorrateiras por trás dos meus olhos e faziam confusão e convulsão e confluência de sentidos, toda aquela poesia era como uma caneta a vazar tinta: tentava escrever e definir limites, mas tudo resultava em um borrão disforme e indelével…
… mais adiante, na sala de estar, um piano inabalável me chamava para retomar o que há muito era assunto em suspenso, estrofes sobre o papel-manteiga e notas que teimavam em não encaixar; a custo, caminhei em meio ao turbilhão de idéias e intempéries, alcancei o velho amigo preto-e-branco; sem dizer palavra, sentei em frente a ele e acariciei-o como nos sonhos mais úmidos e breves: mi, dó, dó, si, e um sol, sustenido e amargo, lâmina preta que cortou no cerne da tempestade, sangrou a carne das nuvens e fez chover, chuva calma e redentora que dissolveu a sinfonia bizarra; papéis, cacos de espelho e borrões de tinta, tudo apagado pela água renovadora das cinzentas nuvens da consciência…
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